terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Entrevista com Monsenhor Guido Marini


Para o mestre das Cerimônias Pontifícias do Santo Padre, a liturgia está intrinsicamente ligada à espiritualidade - e isso se reflete nas postulações e considerações do Papa Bento XVI sobre o tema. Nesta entrevista exclusiva a Gaudium Press, em Roma, mons. Guido Marini fala sobre reforma, justificação e fidelidade litúrgica.

Gaudium Press - Como a Igreja católica entende a liturgia depois do Concílio Vaticano II? Qual é o sentido, o coração da liturgia? O Santo Padre durante sua recente viagem à Inglaterra, na Catedral de Westminster falou sobre a dimensão do sacrifício.
Creio que haja dois aspectos da celebração eucarística onde um deve estar junto ao outro. Porque como se diz também nos documentos do magistério, a Missa é a renovação do sacrifício do Senhor e, ao mesmo tempo, é também o momento, o lugar no qual este sacrifício se comunica a nós através do sinal da convicção. Por isso, eu creio que haja dois elementos, ambos fundamentais para a compreensão da celebração eucarística. Creio também que a dimensão sacrifical é uma dimensão de fundação. Porque se não houvesse o sacrifício redentor, não existiria nem mesmo a possibilidade de comunicar este sacrifício e assim entrar em comunhão com a salvação que nos foi dada pelo Senhor Jesus. Eu creio que isto seja a visão que a Igreja nos transmite através de seu ensinamento e que nos leva ao coração autêntico da liturgia.
GP - O Santo Padre se refere também brevemente à questão da justificação. Sempre falando sobre liturgia, como a Igreja Católica apresenta o tema da justificação em Cristo?
No âmbito da liturgia, justamente porque repropõe, apresenta, atualiza o mistério da salvação, isto é, do Senhor que morreu e ressuscitou por nós, se apresenta também como o momento da justificação da humanidade e do homem. Porque nós sabemos que o homem é salvo justamente em virtude deste mistério de morte e ressurreição. É claro que depois cada um deve se apropriar pessoalmente, subjetivamente, dessa justificação que foi dada. E então me parece que sejam os dois aspectos de novo importantes, ambos fundamentais da participação na liturgia. De uma parte vem um dom, que é o dom da salvação e portanto o mistério que se renova. Por outro lado este dom deve ser porém acolhido na vida de cada um e deve tornar-se vida da vida. Então, há sempre esta relação entre dom e responsabilidade, justificação dada e justificação acolhida na própria vida pessoal.
GP - O então professor Ratzinger nos seus escritos fala na reforma da reforma da liturgia. Como o senhor vê esta exigência das reformas, das mudanças na liturgia? De fato, algumas mudanças já foram introduzidas pelo Santo Padre Bento XVI.
Quando às vezes se fala e se usa este termo "reforma da reforma", se arrisca a ser "mal entendido". Porque nem todos o entendem da mesma maneira e nem todos o captam do mesmo modo. Eu creio que, além das frases feitas, aquilo que é importante é que a reforma que o Concílio Vaticano II iniciou seja efetivamente realizada em modo completo segundo os ensinamentos do Concílio, que colocam a liturgia em uma continuidade com toda a sua tradição no mesmo tempo com o critério de desenvolvimento orgânico. Como deve ser sempre na vida da Igreja. A atuação prática da reforma depois do Vaticano II não está sempre feliz. Exatamente por isto que talvez seja necessário fazer alguma correção, alguma mudança, alguma melhoria justamente para atuar em modo completo as indicações do Concílio e fazê-las de forma que pareça cada vez mais claro com o desenvolvimento da liturgia da Igreja e se coloque em orgânica continuidade com a que a precedeu.
GP - Uma das indicações do Concílio Vaticano II não realizada na prática foi o desejo de um movimento litúrgico dentro da Igreja, principalmente na Alemanha e na França. Agora como se vê esta exigência na pastoral litúrgica?
O próprio Papa ainda cardeal havia desejado um renovado movimento litúrgico que pudesse criar as condições, as bases para o desenvolvimento interior, aprofundamento da vida litúrgica da Igreja. Assim como foi antes do Concílio Vaticano II. Aqui também há diversos modos de ver, de estender as relações entre o movimento litúrgico antes do Concílio com este movimento litúrgico que continua ainda agora que se gostaria que fosse ainda mais significativo, talvez renovado. Eu creio que a vida litúrgica da Igreja conhece um florescimento sempre que há um terreno que seja capaz de fazer florescer. Então creio que seja importante o amor à liturgia e também o viver a liturgia com fidelidade a indicações da Igreja, a fim de se tornar de algum modo aquele grande movimento litúrgico que depois pode trazer frutos para a vida litúrgica da Igreja.
GP - O Santo Padre durante sua audiência geral de 29 de setembro disse que "A Liturgia é uma grande escola da espiritualidade". O que queria dizer o Santo Padre?
Creio que ele queria dizer que a espiritualidade cristã nasce da liturgia e cresce com a liturgia. Acredito que não seja imaginável a espiritualidade fora do contexto litúrgico. Justamente porque é da liturgia que nós obtemos a graça que nos salva e é na liturgia que nós crescemos dentro desta graça que nos salva. Nós encontramos o Senhor vivo, presente na Igreja operante na sua Igreja em modo mais alto justamente na liturgia. Então, se isto faltasse, então de verdade faltaria a fonte, a força para qualquer espiritualidade. Uma verdadeira vida espiritual, um crescimento da vida espiritual, um caminho intimamente espiritual só é possível em relação com a liturgia.
(Anna Artymiak)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Cardeal Joseph Ratzinger (1985) sobre Maria

Quando eu era jovem teólogo, antes e até mesmo durante as sessões do Concílio, como aconteceu e como acontecerá a muitos, eu alimentava uma certa reserva sobre algumas fórmulas antigas como, por exemplo, a famosa De Maria nunquam satis – “Sobre Maria jamais se dirá o bastante”. Esta me parecia exagerada.
Encontrava dificuldade, igualmente, em compreender o verdadeiro sentido de uma outra expressão bastante famosa e difundida repetida na Igreja desde os primeiros séculos, quando, após um debate memorável, o Concílio de Éfeso, do ano 431, proclamara Nossa Senhora como Maria Theotokos, que quer dizer Maria, Mãe de Deus, expressão esta que enfatiza que Maria é “vitoriosa contra todas as heresias”.
Somente agora – neste período de confusão em que multiplicados desvios heréticos parecem vir bater à porta da fé autêntica -, passei a entender que não se tratava de um exagero cantado pelos devotos de Maria, mas de verdades mais do que válidas.
Cardeal Joseph Ratzinger – Entretiens sur la Foi, Vittorio Messori – Fayard 1985.
(Publicado originalmente na festa da Imaculada Conceição de 2008

Natal por Santo Agostinho



Veio para curar os olhos do nosso interior, para que, uma vez curados, nós, que antes éramos escuridão, nos convertéssemos em luz no Senhor. E assim, ao olhar para ela, pudéssemos resplandecer em toda sua claridade"
(Santo Agostinho - Sermão 195, 3)

"Quis (Cristo) nascer hoje no tempo para levar-nos até à eternidade do Pai. Deus fez-se homem para que o homem se fizesse Deus... O homem pecou e converteu-se em réu; Deus nasceu como homem, para que fosse libertado o réu. O homem caiu, porém Deus descendeu. Caiu o homem miseravelmente, descendeu Deus misericordiosamente; caiu o homem pela soberbia, descendeu Deus com sua graça"
(Santo Agostinho - Sermão 13)

"Deus enviou-nos o seu Filho, para que, participando da nossa mortalidade por amor, nos fizesse participantes da sua divindade por adoção"

(Santo Agostinho - Sermão 121, 1)

"Tanto nos amou que por nós foi feito no tempo aquele por quem foram feitos os tempos (...) Tanto nos amou que se fez homem o que fez o homem"

(Santo Agostinho - Sermão 188, 2)

São Pio de Pietrelcina (Padre Pio) - Imagens raras

Fonte:  fratresinunum.com

domingo, 12 de dezembro de 2010

Vou sem pressa a hora é essa!

De Zé Luiz e Gago, para todos os Leitores, muito obrigado, e esperamos a oração e a amizade de todos vocês...dos seus Coordenadores, em Cristo!


Oh, segundo!
Grecco

Vou sem pressa a hora é essa
E entre nós, lá no fundo,
Um aceno, um afago
Cada um pro seu mundo

Sempre vai
E algo novo volta
Com a gente e por aí
Vai se lembrar dos nossos dias
No seu coração

Oh, segundo!
Espera um pouco só sem passar
Eu não pensava em ir embora
Somos pra sempre nessa hora

Oh, segundo!
Espera um pouco só sem passar
Parem estrelas, fica aurora
Porque você na minha história
Não passará


Ritos Iniciais na Santa Missa III

Por D. José Palmeiro Mendes, OSB 

Abade Emérito do Abadia Nossa Senhora de Montserrat
(Mosteiro de São Bento), no Rio de Janeiro, RJ 

A parte 1 deste estudo encontra-se neste link 


A parte 2 deste estudo encontra-se neste link

Ato penitencial      

Segue-se o ato penitencial, o qual quer predispor interiormente a assembléia para bem celebrar a Eucaristia. Ele é importante; não tem caráter sacramental, “não possui a eficácia do sacramento da penitência”, diz, de forma bem explícita, em nova formulação, a Instrução Geral do Missal Romano, 51, mas serve bem para perdoar nossos pecadoscotidianos, pecados veniais. O povo de Deus volta-se para seu Senhor, a fim de se reconhecer pecador e se preparar para acolher o dom de Deus. É uma confissão geral de toda a assembléia, rito de reconciliação com Deus e com os irmãos.

A propósito, é bom lembrar o caráter de penitência e a força expiadora dos pecados que tem toda celebração da Eucaristia. Na Introdução ao Rito do Sacramento da Penitência nota-se que “no sacrifício da Missa a paixão de Cristo se faz presente e a Igreja oferece de novo a Deus, para a salvação de todo o mundo, o Corpo que é entregue por nós e o sangue que é derramado para a remissão dos pecados. Na Eucaristia, Cristo está presente e se oferece como “vítima de nossa reconciliação” e para que “sejamos reunidos num só corpo” pelo seu Espírito Santo” (nº 2). E mais adiante: “De muitas e variadas maneiras o povo de Deus pratica e realiza uma contínua penitência. Participando da Paixão de Cristo pelos seus sofrimentos e convertendo-se cada vez mais ao Evangelho de Cristo pela prática das obras de caridade e misericórdia, torna-se no mundo o sinal da conversão a Deus. A Igreja o expressa em sua vida e o celebra em sua liturgia, quando os fiéis se reconhecem pecadores e imploram o perdão de Deus e dos irmãos, como sucede nas celebrações penitenciais, na proclamação da palavra de Deus, na oração e nos elementos penitenciais da celebração eucarística” (nº 4).       

Desde sempre a fuga do pecado foi tida como uma condição extremamente importante para celebrar a Eucaristia o mais dignamente possível e para apresentar-se diante do altar de Deus com as disposições requeridas. Quem se aproxima de Deus deve ter consciência de sua própria indignidade. Isto se vê claramente nas teofanias do Antigo Testamento. O homem sabe ser indigno e realiza um ato que manifesta esta sua indignidade: como Moisés diante da sarça ardente tira as sandálias ou cobre o rosto e se prostra em terra (lembremos a prostração na solene ação litúrgica da Sexta-feira santa); como Elias, que cobre o rosto com o manto ao se dar conta da presença de Javé no murmúrio de uma brisa suave no monte Horeb. O próprio Cristo recorda que é necessário reconciliar-se com o irmão antes de levar os próprios dons ao altar. A Didachê, escrito possivelmente do séc. II, prescreve (14, 1) que é necessário confessar os próprios pecados para que seja puro o sacrifício que vai ser oferecido. Uma confissão dos pecados não é, por isso, apenas um reconhecimento dos próprios defeitos e da própria indignidade. O crente sabe que a bondade e a misericórdia de Deus pode destruir o mal que está nele. Deseja libertar-se do peso de seus pecados com uma humilde confissão de sua culpa, implorando a graça de Deus, para poder participar dignamente da celebração dos sagrados mistérios. (cf. Johannes Hermans, “La celebrazionedell´Eucaristia – Per una comprensione teológicopastorale della messa secondo ilMessale Romano”, Editrice Elle di Ci, Turim, 1985, pp. 167-168).           

A partir desta concepção, se entende porque em vários momentos da missa tenhamos como que outros atos penitenciais (são as chamadas “apologias”): p. ex., o rito do lavabo e várias das orações antes da comunhão.         

O rito penitencial começa com um convite do sacerdote a um reconhecimento das culpas, a um ato interior de arrependimento. Segue-se então uma breve pausa para a reflexão pessoal. Oxalá haja de fato tal momento de silêncio, infelizmente omitido em tantas ocasiões. Não é para durar muitos minutos, mas também não deve ser brevíssimo, que nem permita tal reflexão e exame de consciência. Os fiéis naturalmente precisam saber o sentido deste momento de silêncio e aproveitar bem o tempo para um real exame e reconhecimento de suas culpas e desejo de conversão. Johannes Hermans, citado acima, fala da indubitável importância deste momento. “Apenas se há este tempo, a confissão comunitária poderá ser realmente fundada num ato pessoal e no recolhimento os fiéis poderão se arrepender. Aqui está o significado do silêncio: que cada um se dê conta pessoalmente do significado e do alcance do rito na própria vida” (pp. 169-170).       

O ato penitencial tradicional é o “Confiteor”, que foi um pouco simplificado no Missal de Paulo VI , acrescentando-se também uma referência o vasto campo dos pecados de omissão. Ele é dito ao mesmo tempo pelo sacerdote e pelos fiéis.

Existem, porém, duas fórmulas alternativas de ato penitencial. A primeira consiste numa dupla invocação à misericórdia de Deus: dois versículos que são recitados alternadamente pelo sacerdote e pelo povo. Tal ato penitencial é muito breve: para que funcione bem parece ser desejável que lhe seja dado maior relevo, fazendo-o preceder realmente de um conveniente silêncio. É como que um grito da alma: “Tende compaixão de nós, Senhor!” Que seja realmente profundo. A temática desta breve fórmula corresponde parcialmente a Joel 2, 17 (“Entre o pórtico e o altar chorem os sacerdotes, ministros do Senhor e digam: “Senhor, tem piedade [tem compaixão] do teu povo!...) e ao Salmo 84, 8 (“Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade [compaixão], concedei-nos também vossa salvação”).

A segunda fórmula alternativa de ato penitencial, é a mais problemática, pois mistura dois elementos originalmente diversos. Trata-se de uma combinação do “Kyrie” [“Senhor, tende piedade de nós’] (parte que segue imediatamente ao ato penitencial) e de três predicados de Cristo (que viestes salvar os corações arrependidos, que viestes chamar os pecadores, que intercedeis por nós junto do Pai), inseridos no “Kyrie” como invocações ou “tropos”. Há para os diversos tempos do ano litúrgico na edição brasileira do Missal invocações alternativas, algumas talvez não muito felizes, pois não tem sentido penitencial. Poderiam ser criadas pelo celebrante outras invocações mais adaptadas ao dia, mas de fato, pensamos, isto não ocorre com muita freqüência. Cremos, aliás, que esta terceira fórmula de ato penitencial é a menos usada. Um liturgista americano, colaborador do Manual de Liturgia do Pontifício Instituto Litúrgico de Santo Anselmo, observa: “O “Confiteor” e a primeira fórmula opcional são formas de confissão geral, que exprimem um sentido de culpa pessoal e um pedido à piedade de Deus. A fórmula “Kyrie”, porém, tem um caráter muito diferente. (...)além de ser uma fórmula variável, é mais um louvor dirigido a Deus por suas ações misericordiosas do que um pedido de misericórdia. Neste sentido é mais semelhante ao “Gloria” do que ao ato penitencial. (...)” (Michael Witczak, “L´Ordo Missae di Paolo VI – Il Sacramentario”, in “Scientia Litúrgica – Manuale di Liturgia”, vol. III, PIEMME, Casale Monferrato 1998, p. 159). De fato, esta forma não constitui uma confissão explícita de culpa, que fica apenas implícita. O que é plenamente ressaltada é a obra salvífica de Cristo e não a recordação e a descrição dos defeitos e erros humanos.   

Enfim, cada uma das três fórmulas de ato penitencial conclui com a mesma oração de pedido de perdão dos pecados: “Deus todo-poderoso tenha compaixão de nós, perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna” (e atenção para o significativo “Amém” da assembléia, “que assim seja”). O sacerdote inclui a si próprio nesta oração de perdão, coloca expressamente a si próprio e a comunidade entre os pecadores diante de Deus. Repitamos o que dissemos no início, usando palavras de Johannes Hermans na obra citada: “A atual oração que conclui o ato penitencial não tem valor de absolvição sacramental em sentido estreito, ainda que se lhe pode atribuir uma eficácia purificadora” (p. 170).

Aspersão dominical da água benta    

Falamos de três fórmulas de ato penitencial. De fato existe ainda como que uma quarta, que é destinada à liturgia dominical: o rito da bênção e da aspersão da água. Está num Apêndice do Missal. É um rito que parece datar do séc. IX, mas com elementos já bem anteriores.      

Está sendo revalorizado, tanto que na nova edição da Instrução Geral do Missal Romano foi acrescentado o seguinte parágrafo ao nº 51, que trata do ato penitencial: “Aos domingos, particularmente no tempo pascal, em lugar do ato penitencial de costume, pode-se fazer, por vezes, a bênção e aspersão da água em recordação do batismo”.    

Ele tem lugar logo após a saudação inicial, substitui em si o ato penitencial e o Kyrie. Pode ser realizado em todas as missas dominicais e não apenas em missas solenes. Quer ser recordação do batismo e pede-se com ele que Deus se digne fazer com que permaneçamos fiéis ao Espírito Santo recebido.

Depois da bênção da água com uma das três fórmulas prescritas e misturado o sal na água (o que é facultativo), tem lugar a aspersão da assembléia. É rito apreciado por nosso povo. Quem está acostumado a este rito por freqüentar igrejas em que se cultiva o canto gregoriano, conhece os cantos que acompanham a aspersão: “Asperges me” ou “Vide aquam” (no tempo pascal). O Missal Romano, contudo, apresenta mais cantos: três para fora do tempo pascal e três para o tempo pascal. Para estas outras fórmulas não existem melodias gregorianas.

Terminada a aspersão, o sacerdote recita uma oração final, pedindo que Deus nos purifique de nossos pecados e nos torne dignos da mesa de seu reino (o que mostra o sentido penitencial que tem o rito, sendo de lembrar o sentido purificador que possui a água e o sal: a água tira as manchas e o sal purifica e conserva. O deixar-se aspergir com a água benta, e portanto santificante, constitui uma confissão de culpa ou um ato penitencial e, ao mesmo tempo, um ato de fé na misericórdia que Deus manifesta a quem com fé participa deste ato penitencial. No sinal da aspersão o crente confessa sua culpa, implora a graça de Deus para poder estar novamente sem pecado, como Deus o tinha feito com o batismo e apresenta-se diante dele para nutrir-se da palavra de Deus e do Corpo e Sangue de Cristo (cf. Hermans, obra citada, pp. 181-182).

Kyrie eleison          

Temos aqui um resquício da língua grega na liturgia latina. Kyrie, eleison, ou seja, Senhor, tende piedade de nós (mais literalmente: Senhor, piedade). Trata-se de uma aclamação já conhecida dos pagãos, uma aclamação honorífica endereçada ao imperador, a um general vencedor de uma guerra ou mesmo a um deus. Era um grito de júbilo, como que um “viva!”. Em si não tem sentido de perdão, não constituindo uma fórmula de ato penitencial, como vemos alguns sacerdotes fazer (outra coisa é a 3ª fórmula de ato penitencial, mencionada em nosso artigo anterior, que integra o Kyrie com três invocações a Cristo). Mas é claro que exprime sempre uma súplica, sendo, p.ex., também utilizada como resposta a intercessões do Ofício Divino.
           
Sabemos, por Etéria, que em Jerusalém, pelo ano 400, no fim do ofício de Vésperas, um diácono propunha intenções, muitas vezes nomes de pessoas, às quais um grupo de crianças respondia Kyrie eleison. As Constituições Apostólicas (cerca de 380) nos mostram que depois da despedida dos diversos grupos, catecúmenos, etc, havia uma intenção à qual os fiéis respondiam Kyrie eleison.A origem do Kyrie na missa romana é controverso e não vamos entrar aqui nas hipóteses levantadas.           

As invocações do atual Missal, a serem cantadas ou recitadas, são três, seguindo-se sua repetição, totalizando então seis vezes: duas vezes Kyrie, duas vezes Christe e mais duas vezes Kyrie. Não se exclui um número maior de repetições por causa da índole das diversas línguas, da música ou das circunstâncias (cf. Instrução Geral sobre o Missal, 52).De fato, a partir do final do séc. VIII o número tinha sido fixado em três Kyrie, três Christe e novamente três Kyrie. No atual Gradual Romano temos diversos casos em que aparecem três vezes cada aclamação, totalizando portanto nove vezes.      

Daí o sentido trinitário que vai tomar este canto. Tal interpretação, porém, não é a primitiva, tratando-se na verdade de um canto em que os fiéis aclamam a Cristo e imploram a sua misericórdia, não apenas quando dizem “Christe eleison”. O Senhor, o Kyrios, é sempre Jesus Cristo. O termo Kyrios, na tradução grega da Bíblia dos Setenta, traduz o nome inefável de Deus e a profissão de fé cristã consiste em aplicá-lo a Jesus (cf. Rm 10,9: “Se confessares com tua boca que Jesus é o Senhor e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre mortos, serás salvo”).Ele, após fazer-se obediente até a morte, é proclamado para a glória de Deus Pai: “Jesus é o Senhor” (cf. Fl 2, 9-11).
A súplica do Kyrie é no fundo um louvor dirigido àquele que é invocado. O brado de súplica exprime a confiança na bondade e no poder de Jesus Cristo. É um louvor que brota da humildade, uma súplica que parte de um espanto, que louva e adora. Se vê o sentido triunfal que possui em muitas melodias gregorianas.

O número de nove invocações, a que acima nos referimos, foi fixado pelo Papa São Gregório Magno. Se diz que ele tinha diante dos olhos a Cristo cercado pelos nove coros de anjos, que o louvam como Senhor. (cf. Theodor Schnitzler, Missa mensagem de vida, pp. 104-107).          

Enfim, lembremos que algumas vezes o Kyrie é omitido: quando precedem determinadas funções, como a bênção e aspersão da água benta aos domingos, ou uma procissão (como no Domingo de Ramos e a festa da Apresentação do Senhor) ou quando a missa está integrada a uma hora canônica, como Laudes e Vésperas.           

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Católicos que promovem aborto não podem receber Comunhão

Cardeal Raymond Burke, Prefeito da Assinatura Apostólica
VATICANO.- O Prefeito da Assinatura Apostólica da Santa Sé, o agora Cardeal Raymond Burke, reiterou que os políticos católicos que defendem, promovem e/ou apóiam o aborto não podem receber a comunhão.

O Cardeal que preside o que poderia ser considerada a “Corte Suprema” no Vaticano, fez estas declarações nas vésperas do Consistório de 20 de novembro no qual o Papa Bento XVI criou 24 novos cardeais.
Em diálogo com a jornalista Tracey McClure que o entrevistou sobre o fato de que em alguns lugares não se está aplicando esta recomendação de restringir o acesso à Eucaristia a católicos abortistas, o Cardeal explicou que esta disposição obedece as normas da Igreja.
O Cardeal Burke disse que “com respeito à pergunta sobre se é que pode receber a Santa Comunhão uma pessoa que pública e obstinadamente defende o direito de uma mulher a abortar o filho que leva em suas entranhas, parece-me algo claríssimo nos 2000 anos de tradição da Igreja: a Igreja afirmou energicamente que uma pessoa que está pública e obstinadamente em pecado grave não deve aproximar-se para receber a Santa Comunhão e, se ele ou ela o faz, então deve ser-lhe negada a Santa Comunhão”.
O Prefeito explicou que a sanção de negar a Comunhão a uma pessoa que dissente publicamente dos ensinamentos da Igreja procura “evitar que a pessoa cometa um sacrilégio. Em outras palavras, evitar que receba o Sacramento indignamente, já que a santidade do Sacramento mesmo exige estar em estado de graça para receber o Corpo e o Sangue de Cristo”.
“É desalentador que alguns membros da Igreja digam que não entendem isto ou que digam que de alguma maneira existe um atenuante para alguém que, embora esteja pública e obstinadamente em pecado grave, possa receber a Santa Comunhão”, disse o Cardeal.
“Esta resposta por parte de muitos membros da Igreja provém da experiência de viver em uma sociedade que está completamente secularizada, e a idéia que está gravada a fogo –o pensamento centrado em Deus que marcou a disciplina da Igreja– não a entendem facilmente os que são bombardeados cada dia com uma espécie de aproximação sem Deus ao mundo e a muitas questões. É por isso que eu busco não me desanimar para continuar proclamando a mensagem em uma forma que as pessoas possam entender”.
O Cardeal pediu aos bispos que neste tema não deixem sozinhos os seus sacerdotes diante dos católicos que defendem ou promovem o aborto: “para mim, não foi fácil confrontar esta questão diante de alguns políticos católicos. E tive alguns sacerdotes que falaram comigo e me contaram como é difícil quando eles têm indivíduos em suas paróquias que estão em uma situação de pecado público e grave… então, eles voltam o olhar para o Bispo para serem animados e inspirados para enfrentar esta situação”.
Por isso, “quando um bispo adota medidas pastorais apropriadas sobre este tema, também está ajudando a muitos outros bispos, e também os sacerdotes”.
O Cardeal Burke insistiu ainda que é necessário pregar esta mensagem “a tempo e fora de tempo, tanto se ela for calidamente recebida como quando não é recebida, ou é recebe resistência ou é criticada”.

Missa da Misericórdia

Análise crítica da entrevista do Papa.

Por Padre Matthias Gaudron
Stuttgart (fsspx.info). O Padre Gaudron, teólogo e consultor para a comissão da Fraternidade São Pio X responsável pelas discussões teológicas com a Santa Sé, fez uma análise crítica do livro-entrevista de Peter Seewalds com Bento XVI “Luz do mundo”. Ele chega à seguinte conclusão:
Mais uma vez, em um empreendimento do Papa, uma única declaração, ainda que não seja uma declaração central, é debatida e ameaça levar ao esquecimento de todo o resto. Tal como ocorreu em seu discurso de Regensburgo, quando Bento XVI fez comentários críticos sobre o islamismo, bem como durante a sua viagem à África, quando suas declarações sobre os preservativos foram disseminadas de uma maneira totalmente distorcida e muitas vezes pouco verdadeira, assim a imprensa mundial anunciou apenas a manchete de que o Papa finalmente teria permitido os preservativos e festejou esse evento já como uma mudança histórica na teologia moral católica.
O Papa permitiu o uso do preservativo?
Na realidade, o Papa disse apenas que se poderia ver um primeiro passo para a moralização e responsabilidade por parte de um prostituto que usa o preservativo com a intenção de evitar o contágio da AIDS. De modo semelhante se poderia dizer também que a decisão de um ladrão assassino de, no futuro, limitar-se ao roubo, a fim de nunca mais ameaçar a vida de outra pessoa, poderia subjetivamente ser um primeiro passo na direção da moralização. Daí inferir que o roubo seria moralmente defensível seria tão desonesto quanto a afirmação de alguns bispos e teólogos, que dizem que agora Bento XVI teria escancarado a porta para os contraceptivos.
Na verdade, o Papa não é totalmente inocente nessas interpretações ao falar sobre “casos únicos fundamentados”. De modo particular, quando Seewald lhe indagou se a Igreja “não seria então fundamentalmente contra o uso de preservativos”, ele deveria ter dado uma reposta inequívoca. Porém, ele disse apenas que a Igreja não vê os preservativos como uma “solução real e moral” e que, em “um ou outro caso”, eles poderiam ser um primeiro passo no caminho para uma sexualidade mais humana. Essa é uma declaração fraca – para falarmos de maneira suave. Naturalmente o Papa não negou que a sexualidade humana só é vivida de maneira decente e conforme a vontade de Deus no matrimônio e, nesse caso, os preservativos e outros contraceptivos são moralmente censuráveis, mas também ele não enfatizou isso de maneira expressiva, como seria absolutamente necessário hoje em dia.
Assim, com a sua tentativa de, possivelmente, se aproximar do mundo secular e não magoar a ninguém, o Papa tem uma parcela de culpa pela confusão e decepção desencadeadas pela mídia nos últimos dias dentre os católicos fiéis.
A declaração também contém uma redução do ensinamento católico sobre a moral, no sentido de que a Igreja aprovaria o controle de natalidade natural (p. 176). Sem dúvida, é moralmente justificável que um casal faça uso dos dias inférteis no ciclo da mulher para prolongar o espaçamento entre os filhos ou até mesmo limitar o número de filhos, quando, por motivos de saúde, financeiros ou semelhantes razões graves, ter outras crianças na família constitua algo insuportável. Assim, da maneira que o Papa se expressa, pode parecer que um casal teria a permissão de utilizar o controle de natalidade natural da mesma forma que outros casais utilizam contraceptivos, para ter poucos filhos ou não ter filho algum. Mas esse não é o caso, porque os filhos são o primeiro objetivo do casamento.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

São Josemaría Escrivá - 1º Icone


A página do Pe. Enrique Monasterio publicou há um par de dias este primeiro ícone de São Josemaría, com as seguintes informações enviadas da Rússia:
"Peço-lhes apenas que toquem o céu com a cabeça: vocês têm direito, porque são filhos de Deus" 

São Josemaría Escrivá




"O primeiro Ícone de S. Josemaria foi pintado – escrito, assim se diz por aqui – por um iconógrafo ortodoxo muito famoso: Alexandre Socolov, entre cujas obras se encontram em várias catedrais do mundo inteiro e um Ícone de Nª. Sª. da Eucaristia, com o Menino representado dentro de um cálice, que tem fama de ser milagroso. É também o autor do Ícone de S. Rafael na capa da mais difundida edição de “Caminho” em russo.

A legenda diz “Deus chama a todos à santidade: Qualquer tarefa, honrada, pode ser instrumento de santificação própria e alheia. Nunca, nesta terra, alguém afirmou uma coisa como esta”.

Como em qualquer ícone o fundo doura do representa a eternidade. S. Josemaria une na cabeça o Céu e a Terra.
Escrever o Ícone levou mais de dois anos de trabalho. Uma versão anterior, modificada mais tarde, presidiu à Missa do dia 26 de Junho do ano passado, na catedral de Moscovo. O arcebispo Paolo Pezzini, benzeu-a e expô-la à veneração do povo."